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sábado, 24 de fevereiro de 2018

Leitura e interpretação de crônica humorística | Fúria no trânsito (Walcyr Carrasco)

Gênero textual: crônica humorística

Leia esta crônica humorística de Walcyr Carrasco.


Fúria no trânsito 

Existe uma forma simples de avaliar o grau de evolução do ser humano. Basta observar dois sujeitos após uma batida. Saem dos veículos arrebentando as portas. Olhares ferozes. Torsos inclinados para a frente. Mãos crispadas. Batem boca. Bastaria mudar o cenário, trocar os ternos por peles e entregar um porrete para cada um. Estaríamos de volta à pré-história, Poucas atividades humanas despertam tanto o espírito selvagem como a guerra no trânsito. 
Tenho um amigo de fala mansa, calmo e sensato. Outro dia estávamos no carro. Chuviscava. O suficiente para que os carros entrassem numa luta desenfreada no asfalto. Cortadas súbitas. Buzinas. Ele passou a costurar por todos os lados. Fomos ao Morumbi Shopping. Havia uma fila para o estacionamento vip (quem almoça em alguns restaurantes de lá tem direito a manobrista gratuito). 
- Um idiota está parado lá na frente - ele anunciou.
- Por que idiota? Você não sabe o motivo ... - comecei a dizer. 
Não pude terminar a frase. Agarrei-me ao banco. Ele atirou o carro para a direita. O da frente fez o mesmo. Para não bater, meu amigo jogou o seu sobre o canteiro. Veio a pancada. O pneu arrebentou. O veículo parado mexeu-se, vagarosamente, e partiu. Meu amigo esbravejou. Trocou o pneu. Depois foi a uma borracharia, onde acabou brigando também. Passou o resto do dia num humor de cão. Telefonou: 
- Tudo por culpa daquele imbecil! 
Argumentei: 
- Você não sabia o motivo de o carro estar parado. A pessoa podia estar se sentindo mal. Pense. Por causa de alguém que não conhece, você quase amassou o carro, arrebentou seu pneu e está furioso. Como permite que um desconhecido faça tudo isso com você? 
Silêncio sepulcral. Depois, ouvi um clique do telefone sendo desligado. 
Costumo dirigir devagar. Quando vou para o Litoral Norte é uma tortura. A estrada só tem uma pista, com muitos locais de ultrapassagem proibida. Tento me manter na velocidade exigida pelas placas. Adianta? Alguém sempre gruda em mim. Volta e meia, quando ultrapassam, ouço me xingarem. 
Nestes tempos politicamente corretos, já não se ouvem tantos gritos do tipo: 
- Ô dona Maria, vá pilotar fogão! 
Entretanto, existe, sim, um preconceito contra mulher ao volante. Confesso que também já tive. Hoje, às vezes passo por uma senhora dirigindo em paz. Alguém do meu lado reclama: 
- Olha lá, empatando o trânsito. Só podia ser mulher. 
Lembro que as seguradoras costumam cobrar menos de motoristas do sexo feminino. Causam menos acidentes. Há algum tempo uma amiga bateu em uma moto. Teve de se trancar no carro enquanto um bando de motoqueiros solidários com o acidentado chutava seu carro. Foi resgatada pelo socorro. Detalhe: o culpado era o motoqueiro. Ninguém se machucou. Ela voltou para casa apavorada. 
Soube de um rapaz que certa vez foi fechado numa grande avenida. Gritou: 
- Safado, você vai ver! 
Seguiu atrás, buzinando. O outro tentava fugir, ele perseguia. Deu uma superfechada, obrigando o carro a parar. Saiu furioso, pronto para a briga. Aproximou-se. 
No banco do motorista estava uma senhora idosa, tremendo de medo. Ele caiu em si. 
- Parecia que eu estava em um filme, me assistindo. 
Gaguejou. Pediu desculpa. Partiu. 
No dia seguinte, vendeu o carro. 
- Não confio em mim mesmo ao volante. Eu me torno outra pessoa. Prefiro não dirigir. 
Claro que não é uma receita para todo mundo. Para ele, funcionou. Anda de ônibus, táxi ou metrô. Sente-se feliz. Como se tivesse abandonado a pré-história e, finalmente, ingressado na civilização. 

CARRASCO, Walcyr. Histórias para a sala de aula: 
crônicas do cotidiano. São Paulo: Moderna, 2010. p. 121-123.

1. A crônica narra um flagrante da vida no cotidiano, e o fato relatado pode ser verídico ou fictício.
a) Observe que a crônica em estudo apresenta uma certa dose de humor, em razão do conteúdo abordado. Em que fato do dia a dia o autor se inspirou?
b) Qual é a crítica feita pelo cronista no primeiro parágrafo do texto?

2. É comum haver trechos descritivos inseridos em narrativas.
a) O que o narrador visou destacar na descrição presente no primeiro parágrafo?
b) Em sua opinião, há exagero quando o narrador compara o comportamento dos que dirigem com violência a seres humanos da pré-história? Esclareça sua resposta.
c) Apesar de a cena descrita apresentar características que não traduzem propriamente o humor, que trecho nos parece cômico?

3. A partir do segundo parágrafo, o narrador passa a contar o caso real de um amigo, que serve de exemplo para o que ele afirmou antes.
a) Observe que, segundo o narrador, o amigo tinha um temperamento tranquilo. Como se explica a mudança de atitude desse amigo ao dirigir o carro?
b) Há pessoas que, mesmo sendo controladas, assumem um comportamento diferente ao volante. Por quê?

4. No diálogo inicial entre os dois amigos, é possível perceber a irritação do motorista.
a) Por que a reação dele e do motorista do carro à frente parece engraçada?
b) Mesmo com um passageiro no carro, o amigo continua agressivo na direção e se enfurece ao colidir e estragar o pneu. O que o narrador quer demonstrar ao relatar as consequências da batida?
c) Nem mesmo o argumento do narrador consegue acalmar o amigo. As considerações que ele faz, na conversa com o motorista, lhe parecem sensatas? Esclareça sua resposta.
d) O próprio narrador conta suas experiências como motorista. Ao contrário do amigo, ele dirige dentro dos limites de velocidade, mas isso parece irritar outros motoristas. O que você pensa a respeito dessa atitude de os motoristas pressionarem aquele que dirige dentro dos limites?

5. Apesar de ter diminuído, o preconceito contra a mulher no trânsito continua existindo. De acordo com o texto, que fato toma evidente que as mulheres são competentes ao dirigir?

6. Outro fato narrado na crônica em estudo se refere à atitude desastrada de um jovem motorista, ao ser fechado pelo carro de uma idosa. A decisão de abandonar o volante, tomada por ele após essa situação, constitui uma medida adequada ou radical? Justifique sua resposta.

7. No texto, foi empregada a norma culta da língua, mas há momentos em que prevalece a informalidade. Dê exemplos e explique o emprego da linguagem informal na crônica.

8. A crônica pode estar mais próxima da literatura - e nesse caso a linguagem é subjetiva, pessoal- ou do jornalismo - quando a linguagem é mais objetiva. Na crônica em análise, os fatos são narrados de maneira mais literária ou jornalística? Esclareça sua resposta.

9. Ao criar seu texto, o cronista tem um ou mais objetivos. Identifique o(s) objetivo(s) dessa crônica.
(  ) Explicar o comportamento humano.
(  ) Divertir ou entreter o leitor.
(  ) Alertar o leitor sobre situações perigosas.
(  ) Fazer o leitor refletir criticamente sobre a vida.

10. Ao registrar uma situação do cotidiano de forma simples, coloquial e breve, o narrador não só produziu humor, como também fez uma crítica social. Como se pode confirmar essa característica na crônica em estudo?

Concluindo: 
Crônica humorística é uma narrativa curta e leve, baseada em fatos do cotidiano, reais ou imaginários, cujo objetivo é divertir o leitor e fazê-Ia refletir.

Gabarito:

1.
a) Ele se inspirou na realidade do trânsito, para mostrar como a maioria dos motoristas dirige com imprudência e mau humor, perdendo facilmente a calma no volante. 
b) Segundo ele, com base no comportamento de uma pessoa na direção de um veículo, pode-se comprovar seu grau de evolução. 

2.
a) A atitude descontrolada de certas pessoas quando ocorre alguma colisão no trânsito. O autor descreveu, basicamente, a reação física de dois motoristas, para mostrar o desequilíbrio de ambos: "Olhares ferozes. Torsos inclinados para a frente. Mãos crispadas"
b) Pessoal. 
c) Aquele que sugere a imagem dos motoristas irritados como se fossem seres pré-históricos vestidos com peles e de porrete nas mãos: "Bastaria [...] trocar os ternos por peles e entregar um porrete para cada um". 

3.
a) Em geral, as pessoas são aparentemente serenas, mas, quando expostas a situações tensas, como a de enfrentar o trânsito, se irritam com facilidade. 
b) Talvez porque o modo como os outros motoristas dirigem as deixe nervosas, fazendo com que elas comecem a agir da mesma forma. 

4.
a) Ambos agem como crianças, pois parecem disputar o espaço no trânsito como se estivessem em um jogo de computador. 
b) O narrador quer mostrar a atitude inconsequente do motorista quando perde o controle no trânsito e discute com o outro. Ou, de forma mais ampla, ele tenta demonstrar a irresponsabilidade dos condutores em geral, quando dirigem sem cautela e acarretam danos a todos. 
c) Pessoal. Sugestão: Sim, pois ele sugere ao amigo que tenha mais serenidade e ponderação antes de tomar uma atitude impensada. 
d) Pessoal.

5. O fato de as seguradoras cobrarem menos seguro das mulheres por elas serem mais cautelosas e provocarem menos acidentes. 

6. Pessoal. Sugestão: Foi uma atitude sensata, pois ele talvez se sentisse incapaz de controlar seus impulsos. Desse modo, pode ter evitado um problema maior. 

7. Exemplos: "Basta observar dois sujeitos"; "Ele passou a costurar por todos os lados."; "Um idiota está parado"; "culpa daquele imbecil!"; "- Ô dona Maria, vá pilotar fogão!"; "empatando o trânsito"; etc. Foram usadas expressões informais ou coloquiais para representar a fala de algumas pessoas e também para tornar a narrativa mais descontraída e leve, tendendo para o humor. 

8. Literária, pois o narrador conta a história de forma pessoal, subjetiva: "Quando vou para o Litoral Norte é uma tortura". 

9. Divertir ou entreter o leitor. | Fazer o leitor refletir criticamente sobre a vida. 

10. O autor abordou um assunto polêmico e bem atual em nossa sociedade: a violência no trânsito. Com bom humor, ele mostra como muitos cidadãos ficam descontrolados ao volante e tomam atitudes impensadas, representando perigo constante para as outras pessoas. 

Atividade de português 6ºano - curiosidade (verbete) com Gabarito

Atividade de português 6ºano - curiosidade (verbete)

Imagem: Google

Limpar os dentes é algo tão antigo quanto a própria civilização. Você sabe quando foi inventada a primeira escova de dentes? 
Para descobrir isso e outras curiosidades, leia o verbete Escova de dentes que faz parte de O guia dos curiosos: invenções, uma enciclopédia temática. 

Escova de dentes. 

A escova mais antiga de que se tem notícia foi encontrada em uma tumba egípcia de 3000 anos a. C. Era um pequeno ramo com ponta desfiada até chegar às fibras, que eram esfregadas contra os dentes. A primeira escova de cerdas, parecida com a que conhecemos, surgiu na China, no fim do século XV [lê-se quinze]. Feita de pelos de porco, as cerdas eram amarradas em varinhas de bambu ou em pedaços de ossos. 
Muito tempo depois, percebeu-se que as escovas de pelos de animais juntavam umidade, prejudicial à higiene da boca, por causar mofo. Além disso, as extremidades pontiagudas das cerdas feriam as gengivas. O problema seria resolvido com o surgimento da escova de dentes com cerdas de náilon, em 1938, nos Estados Unidos. 

Marcelo Duarte. O guia dos curiosos: Invenções. São Paulo: Panda Books, 2007. p. 15

GLOSSÁRIO

A. C: Antes do nascimento do Jesus Cristo
Tumba: Lugar onde se enterra um morto; sepultura, tumulo
Cerda: Pelo ou fibra natural ou sintética usada em escovas, pincéis etc. 
Pontiagudo: De ponta fina e aguda; pontudo
Náilon:  Fibra feita de plástico, elástica e muito resistente

Há milhares de anos em uma época chamada antiguidade, as datas eram contadas a partir do nascimento de cristo. Portanto, 3000 a.C representa uma data ocorrida três mil anos antes do nascimento de Jesus Cristo. 
Quando as escovas de cerdas feitas de pelos de animais chegaram à Europa, no século XVI (lê-se dezesseis), fizeram tanto sucesso que se tornaram um artigo caríssimo. Tão caro que o mais comum é que houvesse apenas uma única escova para toda família.
Esta informação foi pesquisada no livro de Bárbara Soalheiro: Como fazíamos sem...

1. Releia o trecho abaixo e circule as alternativas adequadas.

“A escova mais antiga de que se tem notícia foi encontrada em uma tumba egípcia de 3000 anos a.C” 

Isso significa que:
a) a escova de dentes foi inventada em 3000 a.C.
b) a escova de dentes mais antiga data de 3000 a. C. 
c) pode ser que haja uma escova de dentes mais antiga que do que 3000 a.C.

2. Em que as cerdas de escovas de dentes criadas na China diferiam das atuais? 

3. Copie o trecho abaixo completando-o de forma a justificar o motivo de as cerdas de pelos de porco terem caído em desuso. 

As cerdas feitas de pelos de porco caíram em desuso porque ______________________. Além disso __________________. 

Nesse trecho, a expressão além disso foi usada para:
a) acrescentar informações.
b) concluir uma ideia. 
c) discordar da informação interior. 

4. Releia a última frase desse verbete. 

O problema seria resolvido com o surgimento da escova de dentes com cerdas de náilon, em 1938, nos Estados Unidos.” 

a) A que se refere o termo em destaque?
b) Há quanto tempo foi inventada a escova de náilon? 

GABARITO 

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